Se a IA pode custar o cargo do CEO, talvez o problema não seja a IA

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Uma notícia recente da StartSe chamou minha atenção por um motivo que vai além do número destacado na manchete. Segundo a matéria, uma pesquisa da Harris Poll para a Dataiku, realizada com 900 CEOs de grandes empresas em oito países, mostrou que 78% deles temem que a inteligência artificial possa custar o próprio emprego e comprometer o futuro da empresa que lideram.

O dado impressiona, mas o restante da pesquisa revela algo ainda mais interessante. Esses executivos não estão recuando diante da IA. Ao contrário: 87% afirmam que apostariam o próprio emprego no sucesso da estratégia de IA da empresa.

Ou seja, o medo não parece ser exatamente da tecnologia. O medo é errar a forma de incorporá-la ao trabalho.

E essa diferença importa.

A questão já não é entrar ou não em IA

Para boa parte das empresas, a decisão de adotar inteligência artificial já foi tomada. Modelos, copilotos e agentes estão se espalhando rapidamente, inclusive por iniciativa dos próprios profissionais.

O problema agora é outro: como saber onde a IA realmente melhora o trabalho e onde ela pode apenas acelerar decisões mal compreendidas?

A própria matéria mostra essa tensão. Muitos CEOs dizem questionar decisões de IA tomadas por seus líderes de tecnologia, enquanto acreditam que funcionários já utilizam ferramentas generativas sem aprovação formal.

Isso sugere que a dificuldade não está apenas em escolher tecnologia. Está em construir critério.

Que decisões podem ser delegadas? Em quais situações a IA deve apenas ajudar a explorar possibilidades? Onde o julgamento humano continua indispensável? Quem assume responsabilidade quando a recomendação de uma IA influencia uma decisão importante?

Essas perguntas são menos técnicas do que parecem.

Elas dizem respeito ao próprio desenho do trabalho.

Onde o pensamento humano ainda faz diferença?

Essa é uma das perguntas que orientam a P3HD:

Onde pensar melhor ainda pode mudar significativamente o resultado?

Quando fazemos essa pergunta, deixamos de observar a IA apenas pela capacidade de executar tarefas e começamos a olhar para aquilo que continua exigindo compreensão, contexto, critério, interpretação e responsabilidade.

Em alguns pontos, faz sentido delegar para a IA.

Em outros, o melhor resultado aparece quando pessoa e IA cocriam: exploram hipóteses, comparam alternativas, ampliam repertório ou organizam informações.

E existem situações em que precisamos preservar o julgamento humano, porque a decisão envolve consequências, legitimidade, significado ou responsabilidade que não deveriam desaparecer dentro de uma automação.

O desafio não é defender o humano contra a IA. É descobrir que papel cada capacidade deve assumir em cada situação.

Isso vale tanto para quem está executando uma atividade quanto para quem lidera uma empresa.

Talvez o reskilling dos líderes seja aprender a decidir melhor com IA

Quando falamos em reskilling, é comum pensar nos profissionais cujas tarefas estão sendo automatizadas. Mas a pesquisa mostra que a transformação também chegou ao topo das organizações.

O CEO não precisa aprender a programar agentes ou se transformar no maior especialista técnico da empresa. Precisa desenvolver outra capacidade: compreender como a IA está mudando o trabalho e decidir onde ela deve ampliar, substituir ou apenas apoiar capacidades humanas.

Isso exige mais do que conhecer ferramentas.

Exige conseguir olhar para uma situação real e perguntar:

O que realmente precisa ser compreendido aqui?

Que critérios definem uma boa decisão?

Que contexto precisa chegar a quem decide?

Onde a IA pode assumir esforço?

Onde ela pode ampliar a análise?

E onde alguém ainda precisa assumir o julgamento e suas consequências?

É esse tipo de discernimento que tende a se tornar cada vez mais valioso à medida que a tecnologia avança.

É aí que as Jornadas P3HD se tornam práticas

A discussão pode parecer abstrata até ser colocada diante de um problema real.

É justamente essa a função das Jornadas P3HD.

Em vez de ensinar IA apenas por meio de conceitos ou ferramentas, uma Jornada coloca o profissional diante de uma situação concreta do seu trabalho. Ele precisa compreender o contexto, reconhecer a tensão, explicitar critérios, explorar possibilidades com apoio da IA e tomar sua própria decisão.

A pessoa aprende, na prática, o que pode delegar, onde vale cocriar com a IA e onde seu próprio julgamento continua fazendo diferença.

Isso transforma o reskilling em algo muito mais próximo do trabalho real.

Não se trata apenas de aprender a usar uma nova ferramenta. Trata-se de aprender uma nova forma de atuar profissionalmente em um ambiente no qual a inteligência artificial participará cada vez mais das tarefas.

A Plataforma P3HD foi criada justamente para tornar essas experiências percorríveis e repetíveis, permitindo que o desenvolvimento profissional aconteça sobre situações relevantes para quem participa.

Talvez o risco não seja a IA ocupar a cadeira do CEO

A manchete sugere uma pergunta inevitável: a IA pode substituir o CEO?

Talvez.

Mas a pesquisa parece apontar para um risco mais imediato: líderes sendo obrigados a tomar decisões cada vez mais importantes sobre IA sem clareza suficiente sobre como ela está transformando o trabalho que lideram.

A tecnologia avança rápido. O acesso aos modelos tende a se tornar cada vez menos diferencial.

O diferencial pode estar na capacidade de uma organização reconhecer onde a inteligência digital deve assumir mais trabalho e onde a inteligência humana ainda precisa fazer diferença.

Por isso, vejo a Apropriação Profissional da IA menos como uma questão de adoção tecnológica e mais como uma capacidade de discernimento.

Não basta aprender a usar IA.

Precisamos aprender a decidir como queremos trabalhar com ela.

E talvez essa seja uma pergunta relevante não apenas para CEOs, mas para qualquer profissional diante da mesma transformação:

se a IA consegue fazer cada vez mais, onde o meu pensamento ainda gera valor — e como posso usar a própria IA para ampliar essa capacidade?

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